Investimentos recordes, custos em alta e gente em falta: o paradoxo da construção civil em 2026
- Blog do Jobs

- 20 de jan.
- 3 min de leitura
A construção civil brasileira entra em 2026 vivendo um paradoxo que já não pode mais ser ignorado. De um lado, o maior ciclo de investimentos em infraestrutura desde 2014. Do outro, um gargalo silencioso que ameaça prazos, custos, produtividade e até a viabilidade dos projetos: a falta de pessoas.

Os números impressionam. Segundo a Abdib, os investimentos em infraestrutura devem alcançar cerca de R$ 300 bilhões em 2026, impulsionados majoritariamente pelo capital privado, que já responde por mais de 80% desse volume. Concessões, PPPs e projetos de saneamento puxam o crescimento e reforçam a sensação de retomada estrutural do setor.
Mas, na prática, o dinheiro está encontrando um limite muito concreto. Falta gente para transformar investimento em obra entregue.
O problema não está no capital. Está no capital humano.
Saneamento básico lidera os aportes, com crescimento real acima de 30% em relação ao ano anterior. O PAC acelera, as carteiras de projetos aumentam e o pipeline financeiro nunca esteve tão robusto. Ainda assim, construtoras, concessionárias e empresas de engenharia enfrentam o mesmo dilema: quem vai projetar, executar, fiscalizar e operar tudo isso?
A escassez de engenheiros deixou de ser uma preocupação futura e passou a ser um risco sistêmico. Dados recentes mostram uma retração preocupante na formação técnica do país. Entre 2015 e 2023, as matrículas em cursos de engenharia caíram cerca de 25%. Apenas pouco mais de um terço dos estudantes conclui o curso e, entre os formados, menos da metade segue carreira na área. O Brasil hoje tem cerca de seis engenheiros por mil habitantes. Países como Estados Unidos e Japão têm mais de quatro vezes esse número.
Esse descompasso não é pontual. Ele é estrutural.
O impacto direto aparece na planilha de custos
Quando olhamos para os indicadores de custo da construção, a consequência fica clara.
Materiais e equipamentos começam a mostrar desaceleração. Alguns insumos até ajudam a conter o índice geral. Serviços seguem pressionados por fatores como energia elétrica, mas o grande vetor de alta continua sendo o mesmo: mão de obra.
Em 12 meses, os custos com trabalhadores da construção cresceram quase 9%, bem acima da inflação oficial. Em todas as capitais, os salários subiram mais do que o IPCA.
Em São Paulo, o descolamento foi ainda mais evidente. Não se trata de um movimento pontual de mercado, mas de uma resposta direta à escassez.
A lógica é simples. Quando falta gente, o preço sobe. E quando sobe, a pressão se espalha por toda a cadeia: cronogramas se alongam, margens apertam, riscos técnicos aumentam e decisões estratégicas ficam mais difíceis.
O concreto não ficou mais caro porque falta insumo. Ficou mais caro porque falta gente.
Importar profissionais resolve? Apenas parcialmente.
Diante desse cenário, empresas voltam a recorrer à importação de profissionais de outros estados e até de outros países. Espanha, Portugal e Alemanha já fizeram parte desse movimento. Hoje, a China entra no radar. Essa solução ajuda a aliviar o curto prazo, mas não resolve o problema de fundo.
Sem uma base sólida de formação, sem valorização da carreira técnica e sem uma visão estruturada de desenvolvimento profissional, o setor seguirá enxugando gelo. Importar talento não substitui um ecossistema saudável de formação, retenção e sucessão.
Onde entra a gestão de pessoas nessa equação
O erro mais comum é tratar essa crise como um problema exclusivo de educação ou política pública. Ela também é, e cada vez mais, um desafio de gestão dentro das empresas.
A falta de profissionais não se explica apenas pela queda no número de formados. Ela também passa pela dificuldade de atrair jovens, pela ausência de planos de carreira claros, por lideranças despreparadas para desenvolver pessoas e por ambientes de trabalho que não conseguem reter talento no médio prazo.
Quando mais de 30% das empresas afirmam que pretendem contratar em 2026 e menos de 15% planejam reduzir quadro, a mensagem é clara: a demanda por gente vai aumentar justamente onde já falta gente. Sem uma gestão de pessoas madura, a conta não fecha.
O verdadeiro gargalo de 2026
O Brasil não está travado por falta de projetos, nem por falta de dinheiro. Está travado pela incapacidade histórica de planejar pessoas com a mesma seriedade com que planeja obras.
Enquanto a gestão de pessoas continuar sendo reativa, operacional e fragmentada, o setor seguirá vivendo esse paradoxo. Investimentos batem recordes, mas a execução tropeça no básico. Custos sobem, não por excesso de demanda, mas por escassez estrutural de profissionais.
Resolver esse cenário exige mudar o olhar. Capital humano precisa sair do discurso e entrar na estratégia. Formação, desenvolvimento, liderança, retenção e sucessão precisam ser tratados como parte do planejamento do negócio, não como consequência dele.
Em 2026, o crachá segue mais caro que o concreto. E isso diz muito sobre o futuro da construção civil.