Metas de curto, médio e longo prazo: aprendizados sobre planejamento de carreira
- Carlos Grazina

- 9 de abr.
- 7 min de leitura
Por que a pressa pelo sucesso imediato pode ser o maior obstáculo da sua trajetória: entenda como equilibrar desafios e habilidades para construir uma carreira de excelência na engenharia.

Uma das maiores frustrações no início da carreira acontece quando esperamos que tudo aconteça rápido demais.
Promoções rápidas. Grandes responsabilidades. Reconhecimento imediato.
Quando essas coisas não acontecem no ritmo imaginado, muitos profissionais começam a duvidar das próprias escolhas: da empresa, da área de atuação ou até da profissão. Com o tempo percebi que muitas dessas frustrações têm uma origem simples: falta de clareza sobre o tempo de maturação de uma carreira.
A teoria “flow” descrita por Mihaly Csikszentmihalyi aponta que o um equilíbrio entre o nível de habilidade e o nível de desafio levará a pessoa a alcançar a performance de excelência, ou o “estado de flow”, quando você consegue entregar de forma inconsciente o melhor resultado, mesmo em grandes desafios. Contudo, o que acontece, via de regra, é que no início da carreira os desafios parecem – e muitas vezes são – grandes, enquanto a habilidade ainda não está na mesma proporção, gerando muita ansiedade e podendo causar alguma frustração.
Carreira é construção de longo prazo. Certamente, você pode pensar em nomes como Mark Zuckenberg ou outros gênios que ascenderam de forma absurda e precoce em suas carreiras, mas num planeta de quase uma dezena de bilhões de habitantes, qual o percentual que você imagina ter essa genialidade? Exceções sempre existiram e sempre existirão, mas não são a maioria, com certeza.
Dessa maneira, assim como em uma obra, cada etapa precisa de tempo e planejamento para ganhar consistência. Uma lógica simples que sempre me ajudou a manter perspectiva foi pensar a carreira em três horizontes diferentes: curto, médio e longo prazo.
Curto prazo: aprender e construir reputação
No início da vida profissional, o objetivo principal não deveria ser o cargo, mas sim o aprendizado. Esse período é, na prática, um verdadeiro ciclo de formação profissional. É quando começamos a entender como as coisas realmente funcionam dentro das organizações. Especialmente em ambientes corporativos, é importante ter um tempo de maturação e de preparo, observado por um mentor interno da própria empresa – mesmo que o nome oficial não seja esse – para que sua carreira possa iniciar com base sólida.
Nessa fase aprendemos a lidar com tarefas e prazos, pressão, tomada de decisão e responsabilidade. Também aprendemos a trabalhar em equipe e a conviver com diferentes perfis profissionais.
Muitos jovens entram no mercado já pensando no próximo cargo ou na próxima promoção. Isso é natural, mas pode gerar ansiedade desnecessária. O curto prazo da carreira deveria ser visto como um período de absorção intensa de conhecimento.
Nesse momento algumas atitudes fazem grande diferença:
- Observar profissionais mais experientes;
- Perguntar sempre que houver dúvida;
- Demonstrar interesse genuíno pelo trabalho;
- Assumir responsabilidades com seriedade.
Com o tempo, essas atitudes constroem algo extremamente valioso: reputação profissional.
E reputação não se constrói da noite para o dia. Ela é formada pela consistência das pequenas atitudes do cotidiano.
Médio prazo: evolução e novas responsabilidades
Depois de alguns anos de experiência, começa uma segunda fase da carreira.
Nesse momento o profissional já possui uma base técnica mais sólida e começa a assumir responsabilidades maiores. A empresa passa a enxergar quem realmente entrega resultados de forma consistente.
É nesse período que muitas promoções acontecem. Não apenas pelo tempo de casa, mas porque a organização percebe que aquela pessoa está pronta para um novo nível de responsabilidade.
Algumas características passam a se destacar nessa fase:
- Capacidade de resolver problemas;
- Confiabilidade nas entregas;
- Postura profissional madura;
- Habilidade de trabalhar bem com diferentes áreas.
Profissionais que demonstram essas qualidades começam naturalmente a receber oportunidades mais desafiadoras. E muitas vezes essas oportunidades aparecem antes mesmo de o profissional se sentir totalmente preparado.
Certa vez, estava como engenheiro residente em um canteiro de obras, onde havia uma outra obra em construção de uma empresa concorrente de grande porte, na divisa de muro dos fundos de meu canteiro. Em uma tarde, o gerente da respectiva obra me abordou, questionando o meu salário, e se eu toparia encarar o desafio de trocar de camisa, com uma proposta tentadora – 50% de aumento salarial em relação ao meu atual à época. Estava formado há pouco mais de um ano, e a remuneração é, sem dúvida, um dos gatilhos mais tentadores para essa fase da vida. Ainda ia nessa época para o trabalho de transporte coletivo, 3 conduções para ir e mais 3 conduções para voltar todo dia. O que fazer?
Há uma frase muito conhecida, quase um jargão que diz “que a hora de arriscar é agora, pois se não der certo, sou novo ainda...”.
Por outro lado, minha cultura pessoal de gratidão sempre falou mais alto, pois em meu pensamento, deveria retribuir ao aprendizado ofertado em todo período de estágio, além da efetivação e de certa forma, pagar a dívida com muito trabalho, empenho e resultados para servir à empresa e à liderança que me deram essa oportunidade. Resolvi não levar adiante a proposta de saída e apostar em algo maior, em um futuro de longo prazo nessa mesma companhia. E posso dizer que esta aposta foi vencedora, e vou contar em episódios futuros.
De toda forma, quando olhamos para o resultado, é importante dizer que não existe longo prazo sem curto prazo. É preciso se preparar!
Além da formação em engenharia, que me preparou para esta base inicial, logo percebi que deveria começar a olhar para algum curso de pós graduação, que completasse o ciclo de aprendizado para aquilo que estava me desenvolvendo. Isso também faz parte e anda junto do ciclo do curto prazo.
Primeiramente, fui buscar um aperfeiçoamento técnico para alcançar um patamar de conhecimento que ainda não tinha, através de uma pós-graduação de especialista em Tecnologia e Gestão da Produção de Edifícios. Enquanto isso, as rotinas práticas da agenda de um engenheiro residente foram moldando os primeiros passos de liderança de minha carreira.
Longo prazo: visão de futuro
Existe uma pergunta que poucos profissionais fazem no início da carreira: que tipo de profissional eu quero me tornar no futuro? Não se trata necessariamente de imaginar um cargo específico. O mercado muda muito ao longo dos anos.
Nem todo mundo nasceu para ser diretor, CEO ou empresário, e está tudo bem nisso! Cada um sabe exatamente aquilo que deseja para si ao longo da vida, e de que maneira isso irá impactar sua forma de enxergar o mundo, tanto pessoal quanto profissionalmente.
A pergunta mais importante é sobre impacto:
- Você quer ser reconhecido como um grande especialista técnico?
- Quer liderar grandes equipes?
- Quer desenvolver projetos inovadores ou contribuir para transformar organizações?
Escolha de cursos, experiências profissionais, projetos e até mudanças de empresa passam a fazer mais sentido quando existe uma direção clara.
Ter uma visão de médio e longo prazo ajuda a orientar decisões importantes ao longo da jornada. Eu me recordo das visitas de um diretor técnico de engenharia nas obras, uma pessoa de tamanha admiração pelo reconhecimento tanto interno quanto do mercado. Era uma aula em cada visita, cercada por um misto de medo e pânico em errar ou falar alguma bobagem. Por outro lado, eu sempre observava seus passos, suas mensagens e seu modo de agir. E passou a ser para mim uma referência de alguém que queria me tornar um dia. Ficava imaginando que preparo eu precisaria ter para dominar técnica e gestão igual a dele, que sabia montar times como ninguém, capaz de entregar resultados consistentes e duradouros.
Quando a oportunidade aparece antes da segurança
Uma das maiores lições que aprendi observando diferentes carreiras é que os momentos de crescimento raramente acontecem quando nos sentimos completamente prontos. Na maioria das vezes, as oportunidades surgem acompanhadas de algum nível de insegurança. Isso é natural. Novos desafios sempre trazem dúvidas.
Quando chega a promoção, geralmente somos reconhecidos por sermos, de certa forma, bom naquilo que fazemos. Vem imediatamente uma sensação de prazer e orgulho. Uma carta de reconhecimento e um novo salário era algo muito esperado. Contudo, junto com isso também vem novas atribuições, as vezes novos líderes ou liderados, e com isso é normal acontecer um certo friozinho na barriga.
Mas existe uma reflexão que sempre fez muito sentido para mim: a vontade de vencer precisa ser maior do que o medo e a insegurança. Muitos dos momentos que mais impulsionaram minha carreira foram exatamente aqueles em que aceitei desafios que inicialmente pareciam grandes demais.
Me recordo que logo após entregar minha primeira obra, fui convidado a assumir um empreendimento de grande porte cuja área construída era o dobro da anterior. Um baita desafio! Era uma obra distante 42 km de minha casa, numa outra cidade, com um histórico de problemas de prazos em decorrência de atrasos na etapa de fundações – ela já estava com cerca de 40% de avanço físico e com complexas atividades simultâneas para serem geridas – e imaginei ao conhecer o canteiro que talvez não fosse capaz ou não estaria preparado para encarar à altura. Foram 16 meses desde minha chegada até sua conclusão e entrega, em uma intensa jornada que certamente me preparou para novos desafios, muito mais do que se tivesse seguido por um curso mais suave de obras “normais”. De fato, mar calmo não faz bom marinheiro!
Carreira é maratona, não corrida de 100 metros rasos
Outro erro comum no início da vida profissional é comparar a própria trajetória com a dos outros. Cada carreira possui um ritmo diferente. Algumas oportunidades aparecem mais cedo, outras levam mais tempo.
O importante é manter consistência no desenvolvimento. Carreira se parece muito mais com uma maratona do que com uma corrida de velocidade. Ela exige disciplina, paciência, aprendizado contínuo e capacidade de manter o foco e com resultados consistentes ao longo do tempo.
Dentre várias frases que marcam minha trajetória, uma delas que também aprendi com um de meus líderes é que a na balança da vida, você vai colecionar erros e acertos, só garanta que a quantidade de acertos seja maior e assim as coisas vão acontecer!
Uma mensagem para quem está começando
Se você está no início da carreira, vale fazer um exercício simples, perguntando a si mesmo:
- O que eu quero aprender nos próximos dois anos?
- Que tipo de responsabilidade gostaria de assumir em cinco anos?
- Que profissional eu gostaria de me tornar no longo prazo?
As respostas provavelmente vão mudar ao longo da jornada — e isso é natural. Mas refletir sobre essas perguntas ajuda a tomar decisões mais conscientes. Porque, no final das contas, carreiras consistentes não são construídas por acaso. Elas são resultado de pequenas decisões tomadas com constância ao longo de muitos anos.
Sobre o autor: Carlos Grazina é engenheiro civil e gestor com mais de 20 anos de experiência no setor de construção e engenharia, tendo liderado grandes projetos e equipes de alta performance. É articulista convidado da LigaJobs para a série especial "Lições de Carreira", onde compartilha quinzenalmente reflexões estratégicas sobre liderança, maturidade profissional e os desafios reais do mercado da construção.