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O primeiro passo da carreira: ninguém conta isso para os estagiários

  • Foto do escritor: Carlos Grazina
    Carlos Grazina
  • 26 de mar.
  • 5 min de leitura

Este é o primeiro artigo da série Lições de Carreira na Engenharia, assinada por Carlos Grazina. Nesta jornada de 10 capítulos, o autor retribui à profissão compartilhando reflexões sobre gestão, propósito e os primeiros passos que definem o futuro de um engenheiro.



Em 2004 eu comecei minha carreira como estagiário no edifício Mandarim, na região sul da cidade de São Paulo. Para a época, um gigante de 42 andares, com mais de 300 apartamentos, cercado de desafios entre as tipologias de sua complexa torre, além de sistemas prediais entre outras curiosidades.


Como a maioria das pessoas naquele momento, eu tinha muitas expectativas — e poucas certezas. Eu não sabia exatamente onde a carreira iria me levar. Não sabia quais oportunidades apareceriam. E, principalmente, não sabia quais decisões fariam diferença ao longo do tempo. Mas olhando para trás hoje, depois de mais de vinte anos trabalhando com engenharia, obras e gestão de equipes, uma coisa ficou muito clara para mim: carreira não acontece por acaso.


Ela é construída. E começa a ser construída muito antes do primeiro cargo importante aparecer.


O estágio é o alicerce da carreira


Muita gente encara o estágio apenas como uma etapa obrigatória da formação. Na prática, ele é muito mais do que isso.


O estágio é o momento em que você começa a aprender coisas que nenhuma universidade consegue ensinar completamente:

  • comprometimento

  • responsabilidade

  • postura profissional

  • cultura da empresa

  • relacionamento com equipes


Fiquei responsável por acompanhar a execução das etapas de estrutura, sendo a minha atribuição a conferência das armações do concreto, conferência das tubulações embutidas, prumo e planicidade dos pilares, além de toda programação dos insumos e recursos que demandam esta atividade, tais como programar o aço, o concreto, o moldador que faz o controle tecnológico durante a concretagem, além de liderar durante o dia a logística da realização da concretagem, em contato direto com a central que programa estes serviços. Tinha muito orgulho de listar o nome de diversos carpinteiros e armadores que faziam parte dessa equipe, tais como o Bastian, Beberoto, Lagartixa, Vinte e Um, Edilson, Neto, Paulo Calista, Encarregado Carlão, Mestre Zé Nonato, entre tantos outros que completavam nossa equipe. Moises era um dos moldadores que mais visitavam minha obra, morávamos na mesma região e voltamos de ônibus algumas vezes depois das concretagens. E o time da concreteira também tinha grandes parceiros como o Edison da balança e o Febem da bomba. É fácil saber que você está em ambiente de obra, pois a maioria tem um nome de guerra pra zelar!


É nesse momento que você começa a entender como o mundo profissional realmente funciona. Existe também uma verdade importante que eu costumo dizer para quem está começando: no início da carreira existe muita gente com a mesma formação que você. O diferencial é atitude.


Eu não costumava deixar a bola quicando, bastava passar em minha frente a oportunidade que eu abraçava. E sempre estava disponível para uma nova missão. Tinha orgulho quando a equipe agradecia por terminar a concretagem dentro do horário e ver que todo trabalho valeu a pena.


O que realmente faz alguém se destacar no começo


No início da carreira, alguns comportamentos fazem uma diferença enorme:

  • curiosidade para aprender

  • disposição para ajudar

  • responsabilidade com prazos

  • interesse genuíno pelo trabalho


Parece simples. Mas é impressionante como esses fatores acabam separando rapidamente quem evolui de quem fica estagnado. Grandes oportunidades dentro das empresas raramente aparecem para quem apenas cumpre tarefas. Elas aparecem para quem demonstra comprometimento e vontade de crescer.


Além da estrutura, apoiei as equipes também na preparação das áreas comuns do Mandarim, em intensas atividades que envolviam preparar um verdadeiro clube, além de três subsolos com aproximadamente quinze mil metros quadrados. Dia após dia, aquela obra foi se transformando em um edifício pronto para morar, e com tanto orgulho em ter feito parte, mesmo que ainda como estagiário, vibro toda vez que olho para ele, e sempre que alguém que ainda não conhece, chamo a atenção para mostrar que ele fez parte dessa minha fase inicial da história.


As oportunidades quase sempre chegam antes da preparação


Essa foi uma das maiores lições que aprendi.


Muita gente acredita que em primeiro lugar, precisa estar totalmente preparado para depois assumir um novo desafio. Na prática, quase nunca funciona assim. Na maioria das vezes, as oportunidades surgem antes de você se sentir completamente pronto. E nesse momento aparece um dilema muito comum: aceitar o desafio mesmo com insegurança ou continuar na zona de conforto. Com o tempo aprendi algo importante: na carreira, a vontade de vencer precisa ser maior do que o medo e a insegurança.


Eu ainda não era formado, faltavam 4 meses para isso, e meu líder pediu que o apoiasse para iniciar uma obra, sem a presença de um engenheiro residente comigo. Aquilo foi uma oportunidade de ouro!! Nunca tinha visto uma fundação, mas comecei a ler e entender o que precisava saber. Li procedimentos da empresa, falei com os executores, “abracei” o mestre da obra que foi responsável por me ajudar com sua experiência prática e assim nasceu meus primeiros passos na cadeira de engenheiro. Quando terminou o ano, o presente de formatura foi minha efetivação, juntamente com meu nome na placa da obra.


Planejar a carreira não significa prever o futuro


Planejar a carreira não é prever exatamente onde você estará daqui a 10 ou 20 anos.


O mercado muda. As empresas mudam. Nós também mudamos.


Mas algumas perguntas são fundamentais ao longo da jornada:

  • que tipo de profissional eu quero me tornar?

  • quais habilidades preciso desenvolver?

  • que experiências preciso buscar?


Carreiras consistentes não são construídas em saltos gigantes. Elas são construídas com pequenas evoluções ao longo do tempo.


Admito que sou de um tempo em que as pessoas ficavam muitos anos na mesma empresa, algo raro para os padrões atuais. E o mais incrível a dizer é que, embora tenha permanecido imerso nessa cultura por tanto tempo, posso garantir que a cada ano, novos desafios me motivavam ainda mais a perseguir os degraus dessa carreira na engenharia.


Liderar pelo exemplo começa muito antes da liderança


Muita gente acha que liderança começa quando você assume um cargo de gestão.

Na minha experiência, não é assim. Liderança começa quando você assume responsabilidade, faz o trabalho bem feito, ajuda outras pessoas da equipe e mantém consistência na entrega.


Me lembro de ter passado por um gesseiro em um andar certa vez, e perguntei a ele se os trabalhos seriam finalizados naquele dia, já que estavam perto do fim. Logo justificou que não seria possível pois precisaria sair mais cedo para levar seu filho no médico. Passado dois dias, o encontrei novamente na obra, e perguntei sobre seu filho, se estava melhor. Quase que ele não acreditou em meu interesse por saber da saúde de seu filho, e aquilo gerou uma conexão muito maior do que apenas um funcionário e um líder que cobra os serviços. Um gesto tão pequeno pra mim – e pra tanta gente – mas que deixou uma importância tão grande na vida daquele colaborador.


As pessoas observam muito mais o comportamento diário do que qualquer discurso. Com o tempo, isso constrói credibilidade. E credibilidade é o que abre portas na carreira.


Uma mensagem para quem está começando


Se eu pudesse deixar uma mensagem para estagiários e jovens engenheiros que estão iniciando a carreira, seria esta:

  1. Não espere estar completamente pronto para os desafios. Aprenda o máximo possível. Observe profissionais experientes. Pergunte. Estude. Assuma responsabilidades.

  2. E, principalmente, leve a sério cada etapa da sua jornada profissional. Porque, quando olhamos para trás depois de muitos anos, percebemos algo curioso: os primeiros passos da carreira acabam influenciando muito mais do que imaginávamos.


Assim como em uma obra, tudo começa no alicerce. E quanto mais sólido ele for, maior será a capacidade de crescimento no futuro.

Carlos Grazina é engenheiro civil com mais de 20 anos de experiência no setor de Construção e Engenharia. Ao longo de sua trajetória, liderou desde a execução de grandes canteiros até a gestão de equipes inteiras de engenharia em grandes players do mercado. É colunista convidado da LigaJobs, onde assina a série Lições de Carreira na Engenharia, compartilhando reflexões sobre liderança, comportamento humano e o desenvolvimento das novas gerações de profissionais.

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